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Tudo sobre a série POSE – História + curiosidades!

21 de outubro de 2019
A história da série Pose curiosidades

Antes de começar a escrever este post, quero pedir licença a toda a comunidade LGBTQIA+ em respeito as lutas travadas ao longo dos anos em prol ao reconhecimento de seus direitos e tratamento com dignidade. Tenho total consciência a respeito do protagonismo, não há dúvidas que esse momento é de VOCÊS e que muitas conquistas ainda virão. Billy Porter ter ganho o Emmy por seu papel em Pose foi só o começo. E por falar na série, ela estreou no catálogo da Netflix no dia 28/09, fui correndo maratonar e de cara reconheci inúmeras referências, no final do piloto eu já estava com os olhos cheio de lágrimas… foi aí que pensei: por que não escrever a respeito? Então vem comigo descobrir Tudo sobre a série POSE – História + curiosidades!

Billy Porter ganhando o Emmy por Pose!
Emmy 2019 – Billy Porter entrando para a história como o primeiro homem assumidamente gay ao receber o Emmy de melhor ator em série de drama

Sinopse

Pose é uma série criada por Ryan Murphy, Brad Falchuk e Steven Canals, que se passa na NY dos anos 80 e 90 e acompanha a vida de um grupo de pessoas, dentre elas gays e trans que participam de competições conhecidas por bailes, uma maneira em que a comunidade LGBTQIA+ encontrou para viverem seus sonhos numa época marcada por lutas pela sobrevivência e contra a AIDS.

Primeiras impressões

Confesso que comecei a assistir Pose sem muita euforia. Eu já estava maratonando as séries indicadas ao Emmy e praticamente nenhuma tinha ganho meu coração (Game of Thrones não conta porque é um amor antigo), mas como me emocionei com a vitória do Billy decidi dar uma chance. Curiosamente apesar da série ter estreado no FX em 2018 eu ainda não sabia nada sobre a sinopse e quando a Netflix anunciou a aquisição fui ver o cartaz e tive uma palpitação, imediatamente pensei em Strike a Pose, um documentário maravilhoso no qual falarei mais adiante. Quando tive a confirmação que a série falaria sobre a cultura Voguing no cenário de NY da década de 80 meu coração quase explodiu!

Série Pose tem o maior elenco Trans da história da TV.
Socorro essa série vai me matar do coração

FX (Foto: Reprodução)

Todo mundo que me conhece sabe que eu sou uma lady vintage e que eu tenho uma verdadeira tara pela década de 1980, fora isso NY permeou meus sonhos de criança e foi a graças a Big Apple que decidi junto com meu esposo criar o Movie Places. Acrescente o fato de eu ter sido criada por uma mulher incrível, rodeada de amigos gays e que no auge da epidemia do HIV/AIDS me levava para visitá-los, quando nem a família os queria por perto.

História e Curiosidades

 Os Ballrooms / Balls 

Se você não é um habitué do universo LGBTQIA+ e começou a assistir a série certamente irá se perguntar se os bailes realmente existiram e a resposta é SIM! O Ball culture ou drag ball culture surgiu no início do século passado mais precisamente no Harlem. Abaixo um breve relato do dramaturgo Langston Hughes sobre sua experiência da década de 1920:

“O mais estranho e vistoso de todos os espetáculos do Harlem nos anos 20, e ainda o mais estranho e vistoso, é o baile anual Hamilton Club Lodge no Rockland Palace Casino. Certa vez participei como convidado de A’Lelia Walker. É o baile em que os homens vestido como mulheres e mulheres se vestem como homens durante o auge da era do Novo Negro e a invasão turística do Harlem, era moda para os intelectuais e líderes sociais do Harlem e do centro da cidade ocuparem caixas neste baile e olharem para baixo de acima, na multidão estranhamente variada na pista de dança, homens de vestidos esvoaçantes e toucas de penas e mulheres de smoking e ternos de boxe. “

Langston Hughes

História da Cultura dos bailes de NY.
A história dos lendários bailes – Langston Hughes é responsável por um dos primeiros relatos sobre os bailes

Os bailes resistiram ao longo dos anos até atingirem seu ápice na década de 1980 tornando-se um símbolo da cena underground LBTQIA+. Nesta época os participantes desfilavam, faziam poses e performances em categorias pré-estabelecidas para competições em busca de prêmios como troféus. Em sua maioria eram homens gays, negros ou latinos que buscavam por reconhecimento dentro da comunidade e a fama de sua Casa.

As Casas

Como vemos na série, as casas eram compostas por membros da comunidade LBTQIA+ muitas vezes rejeitados por sua família biológica devido suas orientações sexuais. Eles se uniam sob a proteção de um membro, geralmente mais velho e muitas vezes prestigiado no cenário dos Balls, batizados como “mothers” ou “fathers“.

Muitas casas de destacaram, dentre elas a Dupree, no qual é atribuído ao sua fundadora Paris Dupree a primeira apresentação pública do Vogue durante um baile em 1981, outras casas expressivas foram Labeija e a Xtravaganza. A essa última pertence Jose Gutierez, um dos responsáveis por apresentar o Vogue a Madonna. Ele aparece como jurado em diversos episódios. No primeiro da segunda temporada, Jose finalmente desce a pista e nos presenteia com seus passos impecáveis em homenagem a Paris Dupree.

 O famoso dançarino e coreógrafo Jose Gutierez aparece como jurado na série Pose.
Jose Gutierez – um dos grandes nomes da vida noturna de Nova York da Era Vogue

Vogue / Voguing

Lembram-se quando eu disse que os participantes dos bailes competiam desfilando e fazendo poses? Pois bem, só que não era qualquer tipo pose, eles se inspiravam nas poses das modelos e personalidades que estampavam as capas da revista VOGUE. Os movimentos eram caracterizados pelo posicionamento angular e linear de braços, pernas e tronco que logo se converteram num estilo de dança, tornando-se tão popular ao ponto de chamar atenção da diva do Pop Madonna.

A música Vogue da Madonna ajudou a divulgar o trabalho de LGBTs da cena de NY na década de 90.
Madonna com Jose Gutierez Xtravaganza (deitado) e Luiz Xtravaganza (abaixo à esquerda) entre outros dançarinos que tornaram-se famosos após a turnê Blond Ambition

Blond Ambition e Strike a Pose

Em abril de 1990 Madonna se lançou em uma turnê pelos Estados Unidos, Europa e Ásia para divulgar os álbuns Like a Virgem e I’m Breathless, mas os holofotes estavam todos voltados para o seu novo grande single, Vogue. Madonna foi apresentada ao voguing por Jose Gutierez Xtravaganza e Luiz Xtravaganza, ambos figuras já conhecidas nos bailes do Harlem e que posteriormente tornaram-se seus dançarinos participando não somente da turnê, mas também do vídeo clipe de Vogue e do icônico documentário Na cama com Madonna, de 1991.

Com o passar do tempo, o que era para ser uma história de sucesso e alegria para os sete dançarinos selecionados por Madonna, acabou se tornando um grande drama com direito a intrigas e processos. Infelizmente eles não estavam preparados para lidarem com tamanha fama e após o fim do contrato a maioria se envolveu com drogas, outros contrariam HIV (dois já tinham na época da turnê), porém tudo isso só veio à tona com o documentário Strike a Pose de 2016, que além de proporcionar o reencontro deles, nos convida a percorrer suas memórias através de fashbacks da turnê. Há momentos carregados de emoções com revelações íntimas e desabafos.

Strike a pose é um documentário com ex dançarinos da Madonna da turnê Blond  Ambition, famosos por dançarem VOGUE.
Strike a Pose – Conheça a história por trás do hit Vogue da Madonna, mas sob o olhar de seis dos sete dançarinos (um deles, o Gabriel já faleceu) selecionados por ela para lhe acompanhar na turnê Blond Ambition

Na segunda temporada de Pose podemos ver um pouco do frisson causado pelo single Vogue, afinal pela primeira vez na história membros da comunidade LGBTQIA+ estavam exercendo papéis de protagonistas e ao lado de uma grande estrela. Blanca inclusive batiza seu salão com o nome em homenagem a música, mas com o tempo o interesse do público em Vogue cai e os personagens têm que buscar novas formas para se destacarem e conseguirem respeito.

Leia também: Curiosidades da série Hollywood | Netflix

Paris is Burning

Esse documentário sem dúvida serviu de grande inspiração para os produtores de Pose. Nele podemos ver como funcionavam de verdade os bailes da década de 80, assim como seus preparativos. Acompanhar os depoimentos de quem participou e fez história é muito emocionante, eu fico imaginando o quão importante deve ser para a comunidade LGBTQIA+ esse registro único, de uma época extremamente difícil, onde além da luta contra o preconceito ainda havia o pavor causado pela AIDS e mesmo assim aquelas pessoas se reuniam para celebrar a vida, se permitiam sonhar. Isso é lindo demais.

Se você gostou da série Pose precisa assistir Paris is Burning, disponível na Netflix.

⚠️ ALERTA DE SPOILER: Se você ainda não viu a segunda temporada, não leia o parágrafo abaixo!

Na primeira temporada de Pose há uma referência sutil a fala de Venus Xtravaganza que participou do documentário, ela fala sobre o que as mulheres são capazes de fazer para conseguir uma máquina de lavar louças, e na série Patty cisma com o equipamento doméstico, há uma ênfase nisso e até um close na máquina, como se a intenção fosse atribuir grande importância ao objeto. Outra referência a ela foi a personagem de Candy, que assim como Venus foi encontrada morta em um quarto de hotel, mas infelizmente Candy não representou apenas Venus e sim milhares e milhares de mulheres trans que foram mortas de forma vil e covarde.

HIV/AIDS

Muitas séries de temática LGBTQIA+ e que também abordam o tema HIV/ AIDS acabam sendo criticadas por conferirem ainda mais preconceito e estigma à comunidade, além do lado sombrio que acaba afastando muitos telespectadores, mas felizmente não é isso que vemos em Pose. A série aborda com muita delicadeza um dos momentos mais difíceis da epidemia (meados dos anos 80 e início dos anos 90), há cenas muito emotivas e com falas sinceras, mas não conte com dramalhões e sofrimentos sem fim, muito pelo contrário, a abordagem escolhida foi de pensamento positivo, superação e luta, a mensagem que fica é que a vida continua e que nenhum ser humano deve ser definido por uma doença. Não preciso nem dizer que acertaram em cheio com esta escolha.

Nós amamos Blanca Evangelista
Act up! Blanca e Pray representam a luta pelos direitos e contra o preconceito aos soropositivos

Representatividade

Desde que comecei a assistir Pose, não há um dia sequer que eu não fale sobre a importância desta série com o meu esposo, ele ainda não assistiu, mas sabe de tudo através de mim. Eu não me contento em falar somente com ele, já indiquei para amigos, parentes e no meu Instagram. Mas por quê tudo isso se eu sou uma hetero cis? Porque reconheço a importância desta obra para a representatividade. Pose além de ser a série com o maior elenco trans da história da televisão, ainda tem a maior parte dos atores pessoas negras ou latinas. Pela primeira vez na história a minoria tem os holofotes sobre ela, exercendo um protagonismo brilhante e isso não deve ser comemorado apenas pela comunidade LGBTQIA+, mas por todos que acreditam em um mundo melhor e mais justo.

A terceira temporada de Pose já está confirmada.
Pose – elenco lindo e extremamente competente

FX (Foto: Reprodução)

A Terceira Temporada de Pose

De acordo com a entrevista concedida ao The Hollywood Reporter em agosto deste ano, o co-criador de Pose, Steven Canals revelou que é possível que a série tenha em torno de 5 temporadas, mas que irão trabalhar com flexibilidade, portanto, veremos uma nova geração de filhos na Casa Evangelista, além disso, há a possibilidade de encerrarem a trama em meados da década de 1990, mas precisamente no ano de 1996, que foi um ano importante para as pessoas soropositivas, quando finalmente surgiu os Inibidores de Protease, marcando uma nova era na terapia antirretroviral.

Espero que tenham gostado de saber da historia por trás da série Pose e algumas curiosidades, caso saiba de mais alguma, por favor deixe nos comentários.

Desejo sucesso e vida longa a Pose! Beijos de uma hetero que admira muito a garra dos LGBTQIA+ 💋💋

Leia também: O que esperar da terceira temporada de POSE

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    • Reply
      Rosemarcio
      14 de maio de 2020 at 18:58

      Nossa que legal. Vi a primeira temporada e amei! Já vou partir pra segunda temporada e que venha várias outras.

      • Reply
        Jú Miyoshi | @movie.places
        16 de maio de 2020 at 16:40

        Tb amei! Assista também os documentários que citei, são excelentes!
        Sigo aqui na expectativa da terceira temporada.

    • Reply
      Bianca
      4 de junho de 2020 at 15:10

      A melhor resenha sobre que vi até agora!! Muito obrigada

    • Reply
      Leandro
      5 de julho de 2020 at 15:46

      Estou simplesmente apaixonado, viciado por Pose, de início confesso que não me senti atraído à assistir a série, após certa insistência do meu companheiro, fui assistir, resultado, não consigo parar em um episódio somente. Interessante falar também que, a série traz uma questão importante, raça, sim, porque o que é nos apresentado é um cenário composto pela comunidade lgbtq+ negra e latina, os quais não são aceitos na cena lgbtq+ branca.

      • Reply
        Jú Miyoshi | @movie.places
        8 de julho de 2020 at 15:18

        Nossa eu não vejo a hora de ver a terceira temporada, também quero assistir outro documentário para incluir no post que é o The Queen, precursor do Paris is burning.
        Pose é muito necessário para a sociedade, todos deveram assistir essa obra de arte em forma de série, os assuntos tratados são extremamente relevantes.

    • Reply
      Maria Elisabete Alves Stradioto Stradioto
      14 de setembro de 2020 at 23:48

      Um amigo indicou, chorei rios.
      Agora indico pra todos…
      As mães me fizeram querer ser uma …
      Qta força pra sobreviverem!!!

    • Reply
      Ranya Cruz
      11 de janeiro de 2021 at 16:41

      É série é ótima! ❤️ Uma pena que a terceira temporada vai demorar por causa da pandemia 😔
      Amei resenha muuuito boa!

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