Home Críticas O Retraimento do Eu, em Persona, de Ingmar Bergman

O Retraimento do Eu, em Persona, de Ingmar Bergman

by William Vieira de Souza

Etimologicamente, persona é tanto a máscara usada, no teatro, pelos atores, quanto os personagens representados, em cena; personagens estes que, no momento do jogo cênico, refratam a identidade do intérprete, abrindo espaço para o questionamento a seguir: até que ponto o silêncio, enquanto alegoria para o enigma do retraimento, pode, em uma obra cinematográfica, constituir-se como pilar da resistência à produção de sentido? No filme Persona (1966), produção densa e basilar do diretor e roteirista sueco, Ingmar Bergman (1918-2007), o retraimento do eu institui-se no limiar entre realidade, ficção, autoconhecimento e alteridade, concorrendo, deste modo, para tornar possível, a um só tempo, as simbióticas relações entre cinema, fotografia, desejo, recalque e sintoma. Por mais autoexplicativo que o título possa parecer, ele induz o espectador atento a refletir sobre a projeção de uma personalidade social – uma existência enquanto indivíduo, em sociedade, moldada pelas imposições da cultura – que pode ou não corresponder à real, apontando, assim, para a complexidade da maturação do psiquismo humano, em sua relação inextricável com o outro.

O Retraimento do eu: traumas, sintomas e cura pela fala

Ao narrar a progressão da relação entre uma jovem enfermeira e uma atriz convalescente, interpretadas, respectivamente, pelas atrizes Bibi Andersson (1935-2019) e Liv Ullmann, o filme extrapola os sentidos do real, ao explorar, erótica e psicologicamente, o retraimento do eu, a troca das máscaras e o envolvimento psíquico-afetivo entre Alma e Elisabeth. Em uma ilha deserta, atriz e personagem mergulham em uma interação dialética que remete ao estabelecimento da talking cure ou cura pela fala – uma vez que Elisabeth, emudecida após um trauma, enquanto representava Electra, torna-se, para Alma, máscara e espectador, permitindo a esta última, por meio de longos monólogos, diluir os sintomas de sua culpa por erros cometidos em seu passado.

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Dos Opostos à Fusão do Eu

Com uma fotografia eficiente, convocada para aprofundar o drama pessoal, no qual chafurdam as personagens, e uma trilha sonora envolvente, a direção alicerça as diferenças e similitudes entre as personalidades de Alma e Elisabeth sobre o uso dos opostos – preto e branco; claro e escuro; dentro e fora; adormecida e acordada; ébria e sóbria; muda e falante – até que atriz e enfermeira, máscara e personagem, criador e criatura, Alma e Elisabeth sejam incapazes de dissociar-se, tornando-se, cenicamente, uma amálgama perfeita, resultado da manipulação consciente das angústias e neuroses humanas.

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