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Parasita, O Criado e as mudanças em Hollywood

by Jú Miyoshi | @movie.places

Em fevereiro o longa sul-coreano Parasita (Bong Joon Ho, 2019) varreu a cerimônia do Oscar levando para a casa seis estatuetas. Muitos ficaram surpresos com tal feito, mas será que realmente foi algo tão imprevisível?

Desde sua criação em 1927 por iniciativa de Louis B. Mayer, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas passou por diversos momentos difíceis, mas certamente os últimos anos têm sido os mais delicados, tornando-se alvo de severas críticas devido a falta de representatividade. Como parte do plano de mudanças, no dia 30 de junho deste ano, anunciaram o quadro de novos membros, ampliando a participação de mulheres e de comunidades raciais e étnicas até então sub representadas. Dando continuidade ao movimento de mudança, no dia 08 de setembro divulgaram novas regras que passarão a valer à partir da 96ª edição do Oscar (2024), onde um filme só poderá concorrer a principal categoria se atender critérios de representatividade e inclusão estabelecidos pela Academia. A medida, segundo os diretores, irá encorajar a representação equitativa dentro e fora das telas, a fim de melhor refletir a diversidade do público que vai ao cinema.

Crítica Parasita
Oscar 2020 – Foi mesmo uma surpresa?
CJ Entertainment: Foto (Reprodução).

Ao reproduzir no cinema as relações parasitárias que permeiam a sociedade, a luta de classes, desigualdades sociais e violência, Bong Joon Ho, sem querer – ou querendo, injetou um parasita na corrente sanguínea de Hollywood. Essa, com seu corpo já combalido, parte constituído por velhas células, não resistiu. O hospedeiro sucumbiu ao parasita. Essa criatura outrora imperceptível, agora apossada de todo o sistema, pela primeira vez, assume o protagonismo. Mas não pensem que foi um caminho rápido e/ou fácil, a linguagem escolhida por Bong, como uma das referências, remonta a década de 1950 com o clássico de Joseph Losey, “O Criado” (1956). Assim como na trama sul-coreana, aqui o palco da luta social é a residência de um nobre aparentemente ingênuo que precisa de ajuda para gerir tarefas domésticas, aos poucos, somos apresentados a sua incapacidade de gerir a própria vida, deixando espaços que prontamente serão ocupados pelos “criados”.

O criado
Cena de O Criado
Elstree Distributors Limited – Foto (Reprodução)

A alienação e o escapismo da classe média, financeiramente dominante, estão presentes fortemente nas duas obras, proporcionando momentos de total falta de empatia pela condição do outro. O mau cheiro de seus subalternos são usadas em ambas as narrativas para diminuí-los, colocando-os como seres inferiores, condição reforçada pela escolha dos planos e ângulos revelando a relação de poder, mas como nada neste filme é puramente literal, esta, muitas vezes se inverte, fazendo com que o oprimido passe a exercer o papel de opressor. O diretor conduz os personagens a máxima de Plautus (254-184 a.C.) eternizada por Thomas Hobbes, no qual diz que “o homem é o lobo do homem”, o resultado é uma obra repleta de simbolismos embrulhada numa brilhante crítica social. Tecnicamente conta com uma maravilhosa direção de arte, belos movimentos de câmera, com direito a plano sequência devidamente utilizado para surpreender o espectador na cena do porão.

Oscar 2020 – Protestos como o de Natalie Portman são importantes e levantam questionamentos

Parasita levantou diálogos ao redor do mundo sobre a sociedade etnocêntrica no qual vivemos, no quão pobre e prejudicial essas relações subjetivamente fechadas são para a humanidade. Sua mensagem fortemente ecoada foi transcrita em forma de premiação. Não estou falando apenas das estatuetas, o maior prêmio trata-se das mudanças que já estão ocorrendo na indústria cinematográfica, como as já citadas no início deste texto, mas principalmente das muitas que ainda estão por vir.

Leia também: Conheça outros trabalhos dos criadores de DARK

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5 comments

Nana Pertence 11 de fevereiro de 2020 - 00:33

Oi, Ju!

Então… conversamos ontem sobre a surpresa que foi a vitória de “Parasita,” comentei sobre minha torcida que era para “História de um casamento” é sobre minha certeza de que “1917” levaria.
Assisti “Parasita” e gostei bastante. Assisti receosa, confesso, porque não sabia em que descrição o filme se encaixaria. Optei por não pesquisar sobre ele antes. Tinha o pré conceito de que seria um filme de terror/suspense pelos quais os asiáticos são tão conhecidos. E o filme foi uma grata surpresa pra mim, que o assisti sem expectativas.
Acredito que a narrativa tenha conquistado a academia porque ousou na forma de fazer uma crítica social. Da disparidade das classes sociais, das dificuldades diárias de cada família, da superficialidade de cada personagem e ao mesmo tempo da profundidade de cada um. Da forma como as relações se estabelecem e da sutileza com que certas relações tornam-se tóxicas e perigosas.
O cinema norte americano tem seu lugar comum na produção de filmes de época, sobre guerras (não me entenda mal, como historiadora, eu os adoro); produz filmes lindos; mas com o olhar branco, norte americano e eurocentrista da História mundial. Ver “Parasita” ganhar, pra mim, foi renovador; colocou-nos na perspectiva das relações atuais, rápidas, descartáveis, mutáveis. Não acredito que o filme tenha sido premiado apenas por clamor pela diversidade, mas justamente por demonstrar a diversidade do que nos torna humanos e ao mesmo tempo que nos faz tão parecidos em certa relações que construímos. De poder, de confiança.
Pra mim, arte e política não se separam. A arte possibilita que questões políticas sejam vistas sob diversas formas e olhares.

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Jú Miyoshi | @movie.places 11 de fevereiro de 2020 - 16:27

Você como sempre tem um posicionamento muito lúcido e coerente, concordo plenamente que a arte e a política podem e devem caminhar juntas, eu só me preocupo quanto as pressões populares serem postas a frente da neutralidade exigida na tomada de decisão pela melhor obra. Eu também tinha certeza que 1917 levaria, mas não estava torcendo por ele, exceto na categoria de melhor fotografia porque realmente Roger Deakins é um monstro. A academia já está mudando, Martin saiu sem nenhum prêmio (tampouco estava torcendo por ele rs), mas tecnicamente achei que Era uma vez em Hollywood merecia levar, não no roteiro original porque Tarantino já tinha usado essa narrativa de mudar contextos históricos em Bastardos Inglórios. A crítica de parasita é fantástica, por isso a minha torcida era para ele em melhor roteiro original, mas melhor filme realmente achei exagero, o próprio diretor ficou assustado kkkk, mas é claro, essa é apenas a minha opinião. Escrevi este artigo porque quero que a academia mude para melhor, seja justa e imparcial.

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Leonardo Torres Calabri 13 de fevereiro de 2020 - 13:21

Ju, concordo plenamente com você. Na minha opinião Parasita só era pra ter ganahdo como melhor filme estrangeiro e melhor roteiro original, pelo fato de ter ganahdo como melhor filme foi muita forçação de barra por parte da academia, não estou desmerecendo o longa, claro que não. Mas o que você disse foi certo, houve uma pressão muito grande para que o longa sul-coreano conquistasse tantas estatuetas pelo fato de abranger um grupo que não é muito representado nas várias edições da famosa premiação. Espero que a academia nos próximos anos esteja repensando seus conceitos sobre os mais diversos filmes e quem sabe eles possam ganhar mais notoriedade que tanto precisam.

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Jú Miyoshi | @movie.places 14 de fevereiro de 2020 - 17:49

Você acredita que até irei reassistir hoje pra ter certeza se não deixei passar nada…rsrs

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Leonardo Torres Calabri 14 de fevereiro de 2020 - 19:28

Hahahaha, é sempre bom reassistir.

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