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O Drama do Apagamento da Memória em Meu Pai

16 de abril de 2021

Envelhecer é, a um só tempo, um processo natural e social do desenvolvimento humano. Entretanto, em uma sociedade em que a busca por um paradigma ideal de beleza estética, para aniquilar os vestígios da passagem do tempo, possui contornos cirúrgicos, a aceitação da velhice tornou-se um grande desafio, pois esta última é, em outras palavras, um estágio abjeto do amadurecimento da vida. Isto acontece não apenas porque almejamos eternizar o frescor da juventude, mas, principalmente, por temermos, e aqui se trata de um medo primitivo, a deterioração do corpo, que prenuncia, por meio de sua fragilização, a morte inevitável. No filme de estreia do roteirista e diretor francês, Florian Zeller, um dos sintomas da decrepitude é a demência — condição médica que afeta diretamente o raciocínio, a linguagem e o comportamento do indivíduo — impactando, assim, sua personalidade e sua qualidade de vida. À vista disso, o drama do apagamento da memória em Meu Pai, filme indicado a seis Oscars,em 2021, é palpável e decorre da degradação das funções cognitivas de Anthony, protagonista octogenário, interpretado pelo ator britânico, Anthony Hopkins, que começa a apresentar, desde os primeiros minutos na tela, sintomas severos da degeneração de suas capacidades psicointelectuais.

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Uma Relação entre Pai e Filha

É comovente testemunhar, no cinema ou na literatura, narrativas que encenam, com sensibilidade e visão crítica, a complexidade das relações humanas. A representação de laços afetivos e seus desdobramentos, ao longo dos anos, é uma ferramenta contundente para a consolidação dos pilares do drama familiar. Baseando-se nesses preceitos, a tessitura fílmica de Meu Pai retrata as conturbadas interações entre Anthony e sua filha Anne, interpretada pela atriz britânica, Olivia Colman. Essas interações, que são o fio condutor do filme, são apresentadas ao espectador, por meio do olhar de Anthony – já bastante deturpado pelos efeitos perturbadores da demência. É, neste ambiente de fissuras da memória, que assistimos às rupturas no relacionamento entre um pai, que agoniza na tentativa de dar sentido às suas vivências, e uma filha, que, por estarmos sujeitos às percepções de uma mente fraturada, não podemos, de fato, nos assegurar das nuances de sua participação nos momentos narrados na obra.

Uma Experiência Extraordinária

            Há três pilares fundamentais que nos permitem compreender um filme e, posteriormente, construir sobre ele um pensamento crítico: a trama, o ritmo e a montagem. Meu Pai é um drama denso e coerente, cuja trama, simples em seu argumento e corretamente ritmada, complexifica-se e mergulha, sem alardear, o espectador em uma experiência de observação, construção e reconstrução dos acontecimentos. Isto se torna possível, porque a montagem do filme é impecável – construída em forma de labirinto – e seu eixo narrativo é a própria mente esfacelada de Anthony. Entre testemunha e sujeito da experiência, quem assiste ao filme choca-se e angustia-se com as reviravoltas, na vida cotidiana deste homem, e seus assombros diante de uma realidade volátil que ele não é mais capaz de compreender. À deriva em suas próprias vivências, reconhecendo e estranhando rostos, corpos e situações, o engenheiro octogenário atravessa sozinho as sombrias alamedas do apagamento de si mesmo.

Conclusão

Um dos principais méritos da realização do trabalho de Florian Zeller está na simplicidade e no gradativo adensamento dos aspectos dramáticos da trama do filme; elementos que reforçam o drama do apagamento da memória em Meu Pai. Se, no início, somos apresentados à imagem de um Anthony radiante e independente, na cena final, somos confrontados à figura de um homem reduzido às angústias do medo da perda de suas referências e de si mesmo; somos obrigados a contentar-nos com o retrato de um ser humano que não existe mais.

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