Home Críticas O ciúme (2013), de Philippe Garrel

O ciúme (2013), de Philippe Garrel

by William Vieira de Souza

Os desafios conjugais da vida quotidiana de um jovem casal francês são a matéria-prima bem como o ponto de partida desta sensível crônica melodramática sobre família, amor, infidelidade e solidão. Nela, a partir da complexidade das exigências de Eros, desenvolvem-se e desconstroem-se relações que tecem as trajetórias dos indivíduos em busca de uma permanente satisfação de suas necessidades de amor. Ambientado propositalmente em uma Paris atual, em preto e branco, fria e monótona, O Ciúme (2013), de Philippe Garrel, diretor e roteirista francês, problematiza, com esmero, as raízes das angústias existenciais da vida moderna, que se materializam na liquidez com que amores se desenham e são, maquinalmente, desfeitos – envolvidos em uma trama que se pretende, em princípio, profunda – quando, decerto, ainda orbita a mais áspera superfície dos sentimentos humanos.

O ciúme (2013), de Philippe Garrel

Atravessada por um trabalho de câmera ousado e contemplativo – cuja intenção é desvelar ao expectador a verossimilhança das emoções – esta obra beneficia-se, igualmente, de uma direção competente e uma fotografia indulgente, que tornam possível a acuidade do tom melancólico e da naturalidade das atuações. No entanto, em algumas breves passagens, a crueza visual das imagens parece revelar uma certa negligência para com a construção de um universo estético que seja capaz de contemplar a sutileza dos temas abordados.

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Uma abordagem não pedagógica

Reflexiva, sem pedagogizar os dilemas apresentados, a narrativa expõe as inquietações e inseguranças financeiras, psíquicas e afetivas dos protagonistas, fazendo um uso eficiente dos diálogos – ora intelectuais, ora banais – sobre o amor e os perigos que o cercam. Conservadora, a obra peca ao optar por não explorar, a fundo, as potencialidades orgânicas da sensualidade do corpo, como signo do clímax da satisfação de desejos instintuais. Em vez disso, opta por delegar ao olhar a função de exprimir desejos e frustrações residuais de instintos reprimidos.

O apaziguamento dos dramas

No plano das temáticas, a introdução das diferentes composições familiares e suas interações, sempre intermediadas pela figura de uma criança, evidencia as pretensões do diretor de apaziguar os dramas humanos, intensificados por perdas e abandonos, enquanto contrapõe, em cena, inocência e desilusão.

Conclusão

Com o triunfo da imanência da insatisfação instintual e da solidão urbana, o diretor, além de reforçar o seu posicionamento ideológico, acentua sua predileção pelos conflitos humanos, ao mesmo tempo em que escapa ao clichê dos desfechos felizes. Estamos, indubitavelmente, diante de uma obra fílmica em cuja tessitura se nota uma relação indissolúvel com a contemporaneidade das frágeis relações amorosas.

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