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Nomadland e a sensação de não-pertencimento

by Jú Miyoshi | @movie.places

O favorito deste ano para levar a tão almejada estatueta do Oscar de melhor filme conta com diversos elementos que podem realmente fazer dele o vencedor, que vão desde de um elenco com atuações cativantes, uma atriz principal já reconhecida por sua capacidade de emocionar apenas com expressões, uma direção feminina – ênfase no gênero – capaz de transmitir a sutiliza da vida de indivíduos nômades, que por opção ou não, encontram-se vivendo a margem da sociedade, daquela que é considerada a mais capitalista de todas, a Americana. Chloé Zhao não se enverada no caminho da crítica pura, declarando abertamente guerra ao consumo desenfreado, explorando aquilo que poderia ser seu subproduto, ela prefere explorar sentimentos como a sensação de não-pertencimento, despertando empatia por esse nomadismo majoritariamente branco e frágil.

Nomadismo e nomadismos…

Há algum tempo o termo nômade tem estado em alta, despertando interesse neste modo de vida. Parte deste interesse surgiu através de um tipo de nomadismo que nada tem a ver com o que vemos em Nomadland, me refiro ao nomadismo digital. O estilo de vida antes visto como esquisito, de repente atingiu um status cool graças as redes sociais. Perfis, principalmente, de viajantes, que largaram a rotina sacal dos escritórios por uma vida repleta de novas experiências, refletidas em seus passaportes, começaram a pipocar. O termo nômade recebia assim, uma ressignificação. Mas será que mantinha sua essência? É aqui que o filme de Chloé Zhao se choca com com essa nova forma de nomadismo.

Em Nomadland acompanhamos a rotina de pessoas que vivem em trailers, ou carros adaptados, que transitam por toda a extensão do território americano em busca de trabalhos temporários para arcar com os custos, mesmo que mínimos, deste estilo de vida. Eles seguem regras, formam laços, trabalham e até retornam para determinados lugares. Essas pessoas não estão na internet, muito menos preocupadas com suas imagens, elas vivem um dia de cada vez, de maneira simples, apenas com o essencial para sobreviver. Esse nomadismo parece estar mais próximo daquele dos primeiros homens do que destes que deixaram para trás uma vida enfadonha, e acabaram encontrando mais rotina, tornando-se escravos da criação de conteúdo e exposição.

O nomadismo explorado por Chloé se concentra naqueles que, de certo modo, se viram sem um lugar para retornar. Gente que tinha uma vida estruturada, trabalho fixo, família, bens, ou seja, o pacote completo daquilo que estamos acostumados a ver nos filmes americanos, mas que em um determinado momento, viu tudo isso se esvaziar, deixando um imenso espaço, agora preenchido pela estrada.

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O não-pertencimento

Fern, interpretada por Frances McDormand caiu na estrada após a morte do esposo, mas não foi só isso que contribuiu para a sua partida. A cidade na qual ela vivia, no estado de Nevada, foi atingida em cheio pelo fechamento da fabrica que empregava boa parte da população, fazendo com que a economia local declinasse, a transformando numa cidade fantasma.

À Fern restou um casa pré-fabricada, no meio do nada e uma irmã que vive e pensa de modo completamente diferente dela. A heroína de Nomadland já está na casa dos sessenta anos e não tem filhos, mas não é incomum o espectador se surpreender tentando encontrar saídas tradicionais para ela. Difícil é sentir sua dor, a dor de quem já não pertence a lugar algum, porque perdeu tudo o que considerava de valor nesta vida. De repente o lugar já não importa, é preciso apenas seguir adiante, viver o resto dos dias sem grandes planos e de quebra, se esquivar de lembranças difíceis. Neste sentido, a estrada assume a melhor, se não, a única opção.

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Nômades reais e trilha não original

O longa baseado no livro homônimo de Jessica Bruder conta uma história fictícia, mas inspirada em fatos reais, sendo seu elenco composto por atores não profissionais, que vivem o nomadismo na prática. A maior parte do elenco usou o nome verdadeiro, o resultado são atuações sinceras e comoventes.

Apesar de Nomadland está concorrendo nas principais categorias do Oscar, o filme ficou de fora da de Melhor Trilha Sonora porque as músicas de autoria do compositor italiano Ludovico Einaudi não foram compostas exclusivamente para a obra. Zhao lançou mão de uma trilha original ao ficar atraída pela de Einaudi ao buscar músicas inspiradas na natureza.

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