Seja um colaborador Movie Places

Movie & Book Reviews

Morangos Silvestres: uma obra sobre o tempo

11 de fevereiro de 2021

A impossibilidade de imobilizarmos o tempo, a nosso favor, pode gerar angústias cujos sintomas devem ser observados por meio da recusa do envelhecimento, da solidão e da morte. Em sua obra intitulada Morangos Silvestres (1957), Ingmar Bergman (1918-2007), diretor e roteirista sueco, lança mão do artifício das lembranças e das intermitências dos sonhos, na esperança de poder, de alguma maneira, atenuar os efeitos corrosivos da passagem do tempo sobre o inconsciente e a lucidez do médico Isak Borg, interpretado por Victor Sjöström (1879-1960).

Morangos Silvestres: uma obra sobre o tempo

Com uma trilha sonora minimalista e precisa, o filme retrata, com sensibilidade e nostalgia, a viagem de carro de Isak Borg até à cidade de Lund, localizada no sudoeste da Suécia, onde será homenageado por seus 50 anos de serviços prestados à comunidade, como médico. Este deslocamento torna-se um recurso narrativo eficiente, à medida que viabiliza reflexões existenciais tão caras ao universo cinematográfico de Bergman. É, neste trânsito, objetivo e metafórico, que Isak Borg tem a oportunidade de reavaliar suas vivências do passado, graças a suas reminiscências, enquanto lida com as diferentes significações de uma juventude atual, que o faz confrontar o estatuto do seu próprio envelhecimento.

Veja também: O Retraimento do Eu, em Persona, de Ingmar Bergman

Da Narrativa e da Forma

Em primeira pessoa, o filme tece uma narrativa sobre o eu, ao mesmo tempo em que desvela as frustrações, angústias e fobias de um médico septuagenário, circunscrito em sua própria solidão. Atravessada pela exaltação do belo e da juventude, como clímax de uma experiência de vida exitosa, esta obra tematiza e analisa, cuidadosamente, por meio da alternância entre sonhos, realidade e memória, os horrores psíquicos que a passagem do tempo, a decrepitude, o arrependimento e a iminência da morte podem provocar. Potencializado por uma belíssima fotografia em movimento, que encena diferentes momentos da trajetória de vida de Isak Borg, seu drama pessoal adquire, assim, inúmeros contornos, que viabilizam ao espectador a compreensão das diferentes camadas narrativas que constituem a obra.

Conclusão

Morangos Silvestres é uma obra delicada e poética, que aborda questões prementes da existência humana, sem se perder em clichês ou discussões inacabadas. Trata-se, em sua essência, de um filme de arte, que, através de uma perspectiva existencialista, traz à baila a necessidade irrefutável do aprofundamento do debate acerca da importância das experiências vividas, na juventude, tanto na esfera familiar quanto na social, e da construção de laços afetivos duráveis, porque só desta maneira pode-se combater a solidão e o abandono na velhice.

    Deixe seu Comentário