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JOKER e a Saúde Mental

22 de outubro de 2019
Joker e saúde mental

Demorei, mas finalmente consegui assistir Joker. Vou ser bem sincera, fui sem grandes expectativas, mas um pouco receosa porque algumas pessoas já tinham me alertado que o filme era pesado e desconfortável, isso de um modo geral, mas que poderia afetar principalmente quem tem ou convive com alguém com distúrbios mentais. A essas pessoas que me alertaram só tenho uma coisa a dizer: muito obrigada! Sério, do fundo do meu coração, se não fossem vocês o impacto seria muito maior e talvez eu não estaria conseguindo escrever a respeito…mas vamos lá, passado esse mal estar inicial, me senti na obrigação de escrever a respeito de Joker e a Saúde Mental.

As origens do Mal

Aposto que você já se questionou pelo menos uma vez na vida se uma pessoa nasce má ou se ela torna-se má, e para este questionamento há diversas linhas de estudo dentro da psicologia comportamental que visa explicar os fenômenos envolvidos na mente de um psicopata, mas como não estamos falando de uma ciência exata, sempre haverá margem para teorias e discussões acaloradas. Neste post irei compartilhar o meu ponto de vista. O ponto de vista de alguém que assim como o personagem sofre de distúrbios psiquiátricos, entretanto nunca cruzou a fronteira da criminalidade.

Quem é o Joker?

Como em toda obra cinematográfica, o filme Joker é dividido em atos.
No primeiro que é a introdução, nós temos a apresentação de Arthur Fleck, um homem simples, vivendo na parte miserável de uma metrópole, que enfrenta distúrbios de humor, faz terapia e toma medicamentos controlados. Apesar de introspectivo ele se esforça para se socializar e desenvolver um bom trabalho como palhaço.

Arthur parece um cara que não quer guerra com ninguém, mas a questão é que ele está fora dos “padrões”, apesar de palhaço não é um cara engraçado e ironicamente tem uma patologia que não consegue controlar o riso, a fórmula perfeita para se tornar um esquisitão, acrescente o fato dele ser solteiro beirando uns quarenta anos e ainda vive com a mãe. Eu particularmente não vejo problema nisso, mas o filme trata como uma relação de co-dependência que culminará naquilo que pra mim foi a virada de chave na cabecinha dele.

Arthur Fleck tenta ter uma vida normal no início de Joker.
Arthur Fleck (Joker) – no início do filme um cara aparentemente “normal”.

Warner Bros. Pictures / DC Films (Foto: Reprodução).

Gatilho + Arma carregada

Neste ponto já sabemos que Arthur é um homem solitário, com problemas psiquiátricos que ainda não conseguiu “ser alguém na vida”.
Inúmeros gatilhos são lançados, mas ele parece resistir, até porque ele sequer sabe como reagir, apenas vive um dia de cada vez.

As coisas começam a mudar quando um colega lhe empresta uma arma para se defender de caras malvados que o agrediu enquanto estava trabalhando. Nosso palhaço até então um cara pacífico, passa a andar armado, faz uma série de besteiras e perde o emprego. Prestem atenção, porque agora além de gatilho, tem também tambor e carregado, logo logo Arthur irá sentar o dedo, dando início ao segundo ato.

Armado, agora Arthur Fleck mata três no metrô.
Joker – Cansado, agora Arthur irá agir ou melhor reagir.

Warner Bros. Pictures / DC Films (Foto: Reprodução).

Declínio

O filme em si já começa com Arthur levando literalmente umas pauladas, mas nada que não possa ser superado. O problema na vida do nosso protagonista é que ele não tem um minuto de sossego, é uma pancada atrás da outra, entretanto as coisas começam a declinar mesmo quando ele perde o emprego, isso o faz acreditar que é uma chance de finalmente deslanchar com sua carreira de comediante em stand-ups. E esse pensamento e tudo o que vem em seguida me fez lembrar de uma citação de Nietzsche:

“O que alguém é começa a se revelar quando o seu talento declina – quando ele cessa de mostrar o quanto pode. O talento é também um ornamento; um ornamento é também um esconderijo.”

 Nietzsche em Além do Bem e do Mal

 Arthur Fleck tentando carreira de comediante.
Arthur tenta, se esforça, mas…

Warner Bros. Pictures / DC Films (Foto: Reprodução).

Ok, nós temos Arthur escorraçado e desempregado, mas ao menos ele está seguindo o seu sonho, ele até descola uma namoradinha (imaginária), de repente a vida pode ser boa…só que não! Esse é um filme sobre o Coringa, então meus caros apertem os cintos que agora é que a aeronave se descontrola de vez!!

OBS.: O fato dele ter apertado o gatilho no metrô não é a virada de chave, não é a perda do controle, ali ele reage a uma coação, por estar armado se sente dominante e pela primeira vez sente o gosto do poder, por ser alguém, mesmo que escondido atrás de um personagem, porém a virada de chave vem a seguir…

A virada

Estão lembrados quando falei sobre o relacionamento de Arthur e sua mãe? Pois bem, no primeiro ato parece apenas um relacionamento carinhoso entre uma mãe frágil e um filho amoroso, mas sabe aquela máxima que as aparências enganam? Não poderia ser melhor aplicada. Quem diria que aquela simpática senhora foi na verdade uma mãe abusiva, relapsa e que conferiu os traumas mais abjetos ao seu único filho? Ao descobrir isso, Arthur se perde num turbilhão de mentiras que era sua vida até aquele momento, repentinamente ele deixa de existir, assim como a mãe idealizada, no lugar nasce um monstro que ele precisa eliminar para poder ressurgir totalmente livre.

Arthur Fleck e sua mãe Penny Fleck antes do rompimento.
Joker – A relação mãe-filho desanda num nível totalmente imprevisível.

Warner Bros. Pictures / DC Films (Foto: Reprodução).

Desfecho

Após romper o último elo que lhe conferia uma certa estabilidade emocional, Arthur finalmente torna-se Joker. Ele já não sente dor, afinal todo seu sofrimento foi transformado em sede de vingança que a seus olhos é a justiça sendo feita pelas mãos dos oprimidos. Joker passa a debochar daqueles que riam de suas fragilidades, agora ele é um cara destemido, intrigante e extremamente desafiador, ícone para todos aqueles que foram esquecidos ou tratados com descaso pela sociedade, Joker os deu voz, os acordou para ação.

Joker dança livre nas escadarias do Bronx.
Joker finalmente está livre.

Warner Bros. Pictures / DC Films (Foto: Reprodução).

Mas de quem é a culpa?

Aqui voltamos a questão inicial, Arthur nasceu um ser humano mal, com uma índole ruim ou foi lentamente corrompido pelo sistema? De quem é a culpa? Seria da sociedade que o rejeitou de todas as formas possíveis ou da mãe que o expôs a uma série de situações degradantes ainda na infância?
No final das contas, Arthur Fleck é um vilão frio e cruel ou apenas uma vítima que gritou por ajuda enquanto todos tapavam os ouvidos?

A culpa de Joker ser mal é de...
Bora lá apontar o dedo… só não conte comigo para isso.

As respostas para estas perguntas são complexas, mas eu particularmente acredito que somos frutos de nossas escolhas, e no final, elas nos absolvem ou nos condenam. Hoje tenho total consciência que para muitas pessoas estas escolhas são limitadas ou de difícil percepção, principalmente se há problemas psiquiátricos envolvidos, mas uma coisa é certa, sempre haverá uma linha, uma fronteira, seja ela moral, religiosa ou outra qualquer, mas ela estará lá e há momentos na vida em que alguns indivíduos são desafiados a cruzá-la, mas haverá também a opção de não seguir adiante e é este momento que irá defini-lo em culpado ou inocente, bom ou mal.
Somos doutrinados com esta dualidade desde os primórdios e sinceramente eu não saberia dizer como seria a sociedade se não fossemos regidos por estes preceitos, por mais arcaicos que possam parecer.

Precisamos falar sobre Saúde Mental

Setembro Amarelo ficou para trás, e felizmente ainda estamos falando sobre saúde mental graças à Joker. Eu fiz um texto sobre filmes que abordam a depressão (ver post), mas como Joker ainda não tinha sido lançado, ele ficou de fora.

Ouvi muitas pessoas dizendo que o filme foi desnecessário, com cenas muito fortes, apelativo. Pra mim Joker é um filme corajoso por abordar temas tão polêmicos e de forma tão aberta. Acredito também que muitas destas pessoas que fazem este tipo de comentário não devem ter a mínima noção de como é a vida de alguém que sofre com distúrbios mentais, pensam que não e algo grave, uma frescura, outros até sabem, mas é do grupo que prefere ignorar o assunto por ser um tabu. Essas pessoas que criticaram sentiram-se incomodas, mas não as percebi preocupadas se o filme serviria como gatilho para comportamentos semelhantes aos de Arthur/Joker, esse sim seria um argumento plausível, mas não ocorreu.

Joker, precisamos falar sobre saúde mental.
Ilustração: Pedro Hamdan

Chega de tapar o sol com a peneira, a realidade é cruel e deve sim ser retratada pela sétima arte, quanto mais gente falando sobre o tema melhor, pois estimula o diálogo. Nós precisamos falar sobre Saúde Mental como algo normal, corriqueiro, não devemos mais aceitar que o assunto seja ignorado enquanto famílias enterram entes queridos.

Espero profundamente ver Joaquin Phoenix na corrida pelo Oscar, ele deu vida a um personagem complexo, com camadas e mais camadas de problemas mentais, nos entregou uma interpretação visceral, com cenas difíceis de serem vistas, imagine interpretá-las.

Warner Bros. Pictures / DC Films (Foto: Reprodução).

Eu me vi em várias das situações e isso doeu ainda mais. Relembrei das vezes que fui ignorada por profissionais da saúde, dos diários repletos de sofrimento, do vício em medicamentos para fugir da realidade sufocante, dos gritos de socorro que ninguém ouvia… Graças a Deus hoje estou bem e posso assistir a uma interpretação primorosa como essa e ainda ter o privilégio de escrever a respeito.

Este texto tem a versão em vídeo em nosso canal ⤵️

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  • Reply
    Nana Pertence
    23 de outubro de 2019 at 00:11

    Crítica perfeita em todos os sentidos. É difícil não ter empatia por Arthur, por todas as situações que ele vivencia, tentando sobreviver, ser parte da sociedade mas se ver marginalizado, abandonado por ela, invisível.
    Ninguém nasce mal. As pessoas tornam-se más. Por escolha, por inúmeras situações que vivenciam e as transformam, nunca há uma única e simples razão. A linha entre o bem e o mal é tênue. E para pessoas com distúrbios mentais mais que tênue…
    quando Arthur se torna Joker, inúmeras questões de seu passado, adormecidas, vem a tona. Arthur era alguém que tentava se encaixar e fazer outras pessoas sorrirem. Joker queria derrubar o sistema que o colocou como vítima, o abandonou e subjugou. Arthur passou a ser visto, apenas quando suas ações desencadearam uma reação ao “sistema”.
    Doentes mentais, eu inclusa nessa lista, tem dificuldade em encontrar médicos (familiares, amigos, estranhos) empáticos, prontos a realmente ouvir e lidar com nossas questões. Não apenas nos medicar. Nos ouvir. Nos tratar como parte do todo, mas ainda assim como indivíduos.
    É difícil não ter empatia por Arthur. Mas é impossível não temer quem ele se torna. Saí do cinema engasgada, ainda estou e sei que ficarei por um bom tempo.
    É preciso conversar sobre distúrbios mentais, não apenas no setembro amarelo.
    É que impacta seja dado a Joaquin, porque olha, que atuação foda!

    • Reply
      Jú Miyoshi | @movie.places
      23 de outubro de 2019 at 13:15

      Muito obrigada Fabiana!
      Seu ponto de vista também está perfeito.
      Realmente para quem tem problemas psiquiátricos a linha é ainda mais tênue e como a empatia é algo cada vez mais raro, toda essa situação é preocupante, por isso o diálogo tem que ser aberto, é bom saber que não estamos sozinhos neste mundo, que há alguém que nos entende, que já passou por algo semelhante, hoje tenho essa consciência e por isso escrevo ou faço vídeos a respeito. Todos nós temos problemas, a forma em como lidar com eles é que nos diferenciam.

      • Reply
        Nana
        23 de outubro de 2019 at 17:14

        *no final do meu comentário onde está impacta era pra ser OSCAR.

        JU, cê me chamou de Fabiana, pensei “ta brava comigo!” So quem ta bravo comigo me chama de Fabiana! 😂 Sou a Nana que te atormenta nas dm’s do Instagram. Aí lembrei que meu login foi meu e-mail e a assinatura é Fabiana.
        😂

        Sigo impactada com Coringa.

  • Reply
    Natasha
    25 de outubro de 2019 at 02:08

    Oiii Juh
    Estava super ansiosa pra ver sua impressão do filme!
    Concordo em gênero número e grau rsrs
    É impossível não ter empatia por ele. É uma merda atrás da outra!Acho que no momento da grande virada, que é impossível você não falar um palavrão ( inclusive eu dei um grito de choque 😅) na hora do programa de TV. Quando ele fala sobre porque é difícil as pessoas serem gentil e empáticas. Meu olho encheu de lágrima e depois surtei geral com o ocorrido hahaha
    Enfim, pra mim ficou como lição : SEMPRE estar atenta as pessoas ao meu redor. Tem muita gente precisando de ajuda.

    • Reply
      Jú Miyoshi | @movie.places
      25 de outubro de 2019 at 12:43

      Você foi uma das primeiras pessoas a me indicá-lo, quando o fez soube na hora que deveria ser um excelente filme!
      Fico muito feliz por saber que aguardou por minha impressão!

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