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Movie & Book Reviews

Filmes que expuseram o corpo da mulher de forma desnecessária

15 de fevereiro de 2021

Em 1989 um pôster chamou atenção em Nova York, ele trazia a seguinte pergunta: “As mulheres precisam estar nuas para entrar no Met. Museum? ” Na imagem a famosa figura feminina da pintura de Jean-Auguste-Dominique Ingres (1780-1867) intitulada La Grande Odalisque 1814 (Musée du Louvre, Paris) usava uma máscara de gorila, logo abaixo vinha o complemento: “menos de 5% dos artistas nas Seções de Arte Moderna são mulheres, mas 85% dos nus são de corpos femininos.” O pôster foi fixado pelo coletivo Guerrilla Girls, que desde 1984 trabalha para expor a discriminação sexual e racial no mundo da arte. Ao nos transportarmos para o universo cinematográfico de Hollywood, somente 10,7% dos que sentam na almejada cadeira de direção são mulheres, no entanto, dos 100 principais filmes de 2019, 43 apresentavam uma protagonista ou co-protagonista feminina. Assim como na constatação no caso dos museus, o corpo feminino foi e ainda é explorado no cinema, mas algumas obras foram além, confira a seguir filmes que expuseram o corpo da mulher de forma desnecessária.

Era uma vez na América

Sergio Leone, 1984

O último filme do aclamado diretor italiano Sergio Leone é considerado, por muitos críticos, sua verdadeira obra-prima.
Com sequencias longas e uma estrutura narrativa complexa, o filme  estreou em 1984 numa versão encurtada de 139 minutos, desagradando Leone que tinha em sua ideia original dois filmes de três horas, decidindo posteriormente por uma única versão de 269 minutos (4 horas e 29 minutos). Apesar das belas atuações, fotografia e figurinos impecáveis, o filme fracassou comercialmente, somente após o lançamento da versão sem cortes a obra pode ser justamente analisada e aí sim cultuada pelos fãs do gênero e pela crítica especializada.

Numa rápida busca no Google é possível encontrar inúmeros textos enaltecendo a história de ascensão e queda do grupo de gângsteres durante o período da lei seca em Nova York. Raro é se deparar com alguém questionando uma cena de estupro que acontece logo após um momento de extremo romantismo, tomando o espectador de assalto, numa surpresa rasteira e completamente desconfortável.

Cenas de estupros são delicadas, quando realizadas, devem conferir algum propósito a trama. Não há como negar que o estupro em Era uma vez na América faz todo sentido para a história, mas o que vemos na tela é uma cena fria, cruel, onde o corpo da mulher é exposto, devassado e por último descartado, tudo isso com direito a um espectador omisso que assiste com certa revolta, mas no qual não ousa interferir. Depois desta cena, fica difícil continuar acompanhando as memórias de Noodles (Robert De Niro), nas ruas do Lower East Side. O mais triste é imaginar que muitos possam acreditar que Deborah (Elizabeth McGovern) mereceu tal “lição” por “brincar” com os sentimentos de seu antigo flerte, agora algoz. Infelizmente essa é a mensagem que a cena passa e na mente de pessoas perturbadas, isso é aceitável. Alguma semelhança com a vida real?

Último Tango em Paris

Bernardo Bertolucci, 1972

Para muitos, este é o típico filme que deveria ser varrido para debaixo do tapete do esquecimento cinematográfico, o que não concordo. Acredito que ele sempre deverá ser lembrado como um exemplo de quão longe o homem pode ir quando o assunto é violência contra a mulher. Alguns defenderão que vale tudo em nome da arte ou que devemos entender que na época, início dos anos 70, as coisas eram diferentes, esta última afirmação até pode ser considerada, mas jamais aceita como argumento válido nesta obra específica. O que deve ser considerado é que na década de 70, o movimento feminista estava voltando a ter forças, mas a indústria cinematográfica ainda era completamente conduzida por homens, ficando a mulher refém de seus desejos, mandos e desmandos. Obviamente seus corpos eram explorados conforme a necessidade dos diretores, donos de grandes estúdios, executivos do ramo, etc. A questão é que Último Tango em Paris rompeu todas as barreiras do abuso ao exibir em tela uma relação sexual sem consentimento, Maria Schneider não foi comunicada previamente sobre o ato sexual presente na fatídica cena, foi roubado dela o direito de querer ou não tal ato, caracterizando um estupro real, reproduzido milhões de vezes para espectadores ao redor do mundo. Durante uma entrevista em 2013, Bertolucci causou revolta ao contar detalhes sobre a cena da manteiga, depois ele tentou amenizar a situação com uma nova declaração, mas emenda saiu pior que o soneto:

“Há muitos anos na Cinémathèque Française alguém me pediu detalhes na famosa cena da manteiga. Eu especifiquei, mas talvez não tenha sido claro, que decidi com Marlon Brando não informar Maria que usaríamos manteiga. Queríamos uma reação espontânea dela sobre o uso impróprio. Aí está o mal-entendido. Alguém pensou, e pensa, que Maria não tinha sido informada da violência contra ela. Isso é falso! Maria sabia de tudo porque ela tinha lido o script, no qual estava tudo descrito. A única novidade foi a ideia da manteiga. E isso, como eu fiquei sabendo muitos anos depois, ofendeu Maria. Não a violência à qual ela foi submetida na cena, que estava escrita no roteiro.”

Bernardo Bertolucci

Essa declaração foi feita dois anos após a morte de Maria, que sempre afirmou que a cena não estava no roteiro, tendo sido comunicada minutos antes por Marlon Brando. A atriz reforçou essa informação ao Daily Mail em 2007.

“Marlon me disse: ‘Maria, não se preocupe, é só um filme’, mas, durante a cena, embora o que Marlon estivesse fazendo não fosse real, eu estava chorando lágrimas reais. Me senti humilhada e estuprada, tanto por Marlon quanto por Bertolucci. Depois da cena, Marlon não me consolou e nem se desculpou.”

Maria Schneider

Maria Schneider
Maria Schneider

Veja também: 5 Filmes que escancaram o machismo

Passion

Jean-Luc Godard, 1982

Um cineasta exigente (Jerzy Radziwilowicz) lida com produtores e outros obstáculos enquanto faz um documentário sobre luz e imagem, reproduzindo quadros de pintores famosos. O filme é uma obra-prima, mas peca ao reforçar a ideia da mulher como um objeto, as modelos vivo são tratadas de forma fria, distante, manipuladas como um mero pedaço de carne por membros da equipe.

Passion de Jean-Luc Godard
Passion de Jean-Luc Godard

O lobo de Wall Street

Martin Scorsese, 2014

O filme que mostra a trajetória do ex-corretor da bolsa de valores de NY, Jordan Belfort, também expõe um nu frontal, de Margot Robbie, que nada acrescentou a narrativa, servindo apenas para deleite de muitos marmanjos. A triz já deu entrevistas dizendo que se sente constrangida com cenas de nudez ou pouca roupa e que nesta específica teve que mentir para sua família.
Felizmente Margot tem conseguido provar seu talento, conquistando papéis sólidos que não precisam evocar sua inerente beleza constantemente. Eu, Tonya, é o maior exemplo disso, a garantiu uma indicação ao Oscar como melhor atriz. Antes de Margot, atrizes como Sharon Stone tentaram se desvencilhar desta imagem de Sexy Symbol, sem muito sucesso.

O Especialista

Luis Llosa, 1994

Há 27 anos O Especialista chegava aos cinema prometendo exibir umas das cenas mais tórridas do cinema. No fim, entregou um dos momentos mais anticlímax já visto. O motivo: a recusa de Sharon Stone de protagonizar mais uma cena de sexo, a justificativa era simples, a atriz já estava farta de tanta nudez. Sharon só não contava com o empenho de seu parceiro de cena, Sylvester Stallone, em concretizar a filmagem, aliada a sua falta de paciência e empatia com a colega.

 “Chegamos ao set e ela decidiu que não queria tirar a roupa. O diretor pediu à maioria da equipe que saísse do quarto, mas ela continuava se negando a tirar. Se eu havia prometido que não passaria do limite com ela, então qual era o problema? ‘É que estou de saco cheio de nudez’, disse ela. Eu pedi que ficasse de saco cheio disso no filme de outro. Como ela não se convencia, fui até o meu trailer e peguei uma garrafa de vodka Black Death que Michael Douglas tinha me dado. Após algumas doses, éramos puro tesão.”

Sylvester Stallone

Claro que na cabeça doentia dele e de muitos homens, embriagar uma mulher para fazer o que ele deseja é absolutamente normal, eles sequer cogitam ouvir a palavra NÃO, e pior, alguns acreditam que é uma forma de dizer sim, mas com um apelo dramático. Ele ainda teve a coragem de chamar aquilo de puro tesão. Ou esse homem mentiu descaradamente ou a vida sexual dele na vida real não deve ser lá essas coisas…

Um total de zero química para o casal interpretado por Sharon Stone e Sylvester Stallone em O Especialista

Azul é a cor mais quente

Abdellatif Kechiche, 2013

Em 2013 chegou aos cinemas um filme que causou verdadeiro frisson ao mostrar uma bela jovem descobrindo sua sexualidade com outra mulher. Na época, todas as conversas giravam em torno da cena de sete minutos, onde as protagonistas faziam sexo, pouco se falava sobre a conexão emocional das duas ou do talento das atrizes, essas eram quase figurantes no trabalho grandioso do diretor tunisiano, Abdellatif Kechiche, que acabou vencendo o Festival de Cannes daquele ano com seu longa. O que ninguém sabia era o que ele tinha feito nos bastidores. A verdade veio a tona através do Twitter com uma série de denuncias quanto a forma que ele tratou as atrizes e como conduziu de maneira abusiva as cenas de sexo. Posteriormente Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux desabafaram dizendo o quanto esse trabalho foi desgastante, que o uso de próteses de vagina durante as filmagens incomodava o ponto de causar sangramentos. Adèle chorava durante as gravações, mas o diretor não permitia que as cenas fossem interrompidas.
Mesmo após o vazamento destas informações, a imprensa tentou vender a imagem das atrizes emocionadas durante as coletivas como sendo pelo reconhecimento e não pelo abuso sofrido nos sets.

Em entrevista durante o Festival de Cinema de Cannes de 2018, Léa Seydoux, que fez parte do júri, voltou a falar do assunto e observou que agora estamos vivendo uma época diferente, pois as reclamações das mulheres estão sendo levadas mais a sério.

“Já se passaram cinco anos desde que Adèle e eu fomos maltratadas… algumas atrizes me criticaram e nos aconselharam a calar a boca se quiséssemos continuar trabalhando.”

Léa Seydoux

Neste mesmo ano, Abdellatif Kechiche foi acusado de estupro por uma atriz de 29 anos.

Léa Seydoux
Léa Seydoux

Mulheres Em Hollywood É Hora Da Mudança

O que todos estes filmes tem em comum além do fato de ter exposto o corpo da mulher, de forma desnecessária, é que todos foram dirigidos por homens, a maioria considerados semideuses do universo cinematográfico. Pelo conjunto de suas obras, seus erros muitas vezes sequer são questionados. Por isso é tão importante ampliarmos a participação das mulheres nesta indústria, para que tenham oportunidades que vão além da atuação, que possam também escreverem, produzirem e dirigirem, conquistando lugares que até então somente homens ocupavam, e pior, valendo-se do poder para intimidar, abusar e destruir carreiras daquelas que ousaram não se calar diante de tamanha atrocidade.

Mulheres Em Hollywood É Hora Da Mudança é um documentário lançado em 2019 que explora a disparidade entre homens e mulheres na indústria cinematográfica, explica as razões histórias do problema, além de expor os números do preconceito. Grandes atrizes, diretoras e roteiristas falam sobre a representatividade no mercado, como Meryl Streep, Dina Davis Cate Blanchett, Natalie Portman, dentre outras.

Mulheres Em Hollywood É Hora Da Mudança
Disponível no Telecine Play

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