Home Críticas Eu te amo, agora morra: como entender as razões para um suicídio

Eu te amo, agora morra: como entender as razões para um suicídio

by Jú Miyoshi | @movie.places

Em 2014 o suicídio de um jovem de 18 anos chamado Conrad Roy deixou seus familiares em choque, o corpo do rapaz foi encontrado em sua caminhonete no estacionamento do supermercado Kmart em Fairhaven, Massachusetts. Causa da morte: intoxicação por inalação de monóxido de carbônico. Infelizmente Conrad tornou-se parte de uma estatística. Anualmente estima-se que 800 mil pessoas tiram suas próprias vidas, de acordo com o relatório divulgado em 2019 pela OMS, a cada 4 segundos uma pessoa comete suicídio. Mas o que fez o caso do rapaz do interior dos EUA ganhar tanta repercussão na mídia? Ao lado do seu corpo foi encontrado seu celular, que ao ser acessado revelou cerca de 10 mil mensagens trocadas com uma única pessoa que o incitava a prosseguir com o plano mórbido, sua namorada Michelle Carter. A trágica história virou um documentário, Eu te amo, agora morra de Erin Lee Carr está disponível na HBO e nos ajuda a entender um pouco sobre as razões para um suicídio.

O relacionamento

Acredite se quiser, mas Conrad e Michelle só se encontraram pessoalmente cinco vezes desde que se conheceram quando estavam de férias na Flórida no ano de 2012, basicamente todo o contato deles ao longo dos dois anos seguintes foi feito no âmbito virtual, algo muito comum para as gerações Z e Alpha. Engana-se quem supõe que o distanciamento geográfico caracterizava o relacionamento como superficial, muito pelo contrário, a análise das mensagens revelaram que eles tinham um grau elevado de intimidade, eram confidentes e apoiavam-se um no outro.

As mensagens

Desde o início das investigações a mídia teve acesso as mensagens, porém o que não ficou claro no documentário foi se este acesso era da íntegra ou de partes do material e é exatamente este ponto que torna o documentário valoroso, porque ele vasculha desde aquelas trocadas no início do relacionamento até as últimas mensagens de Conrad em vida.

Michelle Carter messages
As mensagens vinculadas na mídia contaram apenas parte da história

É fácil nos dias atuais culpar a imprensa por todo e qualquer tipo de problema, taxar todos os veículos como sensacionalistas, mas especificamente neste caso houve uma excessiva ênfase nas mensagens finais de Michelle Carter, onde de fato ela incentivava de forma fria e objetiva o suicídio do namorado, ao terminar de assistir o documentário a sensação que fica é que todo o histórico foi ignorado para venderem a imagem que a garota era a única culpada pelo trágico fim da vida de Conrad.m.

Felizmente Erin Lee Carr fez o dever de casa, buscou respostas de todos os lados, não aceitou apenas a versão da promotoria e as notas divulgadas nos jornais. Ao dividir o documentário em duas partes a HBO também acertou em cheio, porque a sensação que temos é que são duas versões para uma mesma história, você inicia comprando a ideia que Michelle é um ser humano desprezível que através de suas atitudes levou um jovem rapaz com futuro promissor a tirar sua própria vida, na segunda parte tudo muda de figura, é como se um cortina de fumaça se dissipasse e finalmente fosse possível ver o cenário com clareza.

Michelle e Conrad

A princípio é muito fácil sentir ódio de Michelle e empatia por Conrad, mas é preciso expandir nosso campo de análise, compreender todo o contexto que culminou naquele fatídico 14 de julho de 2014. É certo dizer que ambos sofriam de transtornos psiquiátricos, muito mais evidente em Conrad devido suas mensagens e vídeos em que ele falava abertamente sobre o assunto, no entanto, Michelle também enfrentava seus demônios, o que fica claro é que ambos o faziam sozinhos até seus caminhos se cruzarem. Ansiedade, necessidade de aceitação e pertencimento eram inerentes a ambos e isso contribuiu para o estreitamento dos laços, a falta de interferências externas provocou um descolamento da realidade e o resultado foi catastrófico.

Isenção da culpa

Buscar por culpados e não se esforçar para entender as raízes de um problema é um dos maiores males da sociedade. Se isentar da culpa causa alívio, já buscar por respostas nos tira da zona de conforto e pior, pode nos fazer enxergar que nossas crenças podem estar completamente erradas e nem todo mundo está preparado para lidar com essas informações.

Culpa
Fácil é julgar, difícil é parar pra tentar entender a condição do outro

Uma das coisas mais tristes deste documentário é ver que mesmo após tamanha tragédia os pais não conseguiram entender que Michelle não foi a única culpada, que eles faziam parte do problema. Em determinado ponto é feita uma pergunta direta ao pai de Conrad, ele é questionado de quem é a culpa pela morte do filho e ele não titubeia ao dizer Michelle Carter. Esse mesmo pai foi indiciado por violência doméstica, ele agrediu Conrad por motivo banal, no registro as fotos são chocantes. A mãe por sua vez parece ter sido pega de surpresa, mesmo com todos os indícios de depressão ela aparenta não acreditar que aquela doença teve papel fundamental no suicídio do seu filho e também prefere seguir o discurso do pai, que se não houvesse Michelle seu filho estaria vivo. Chega ser revoltante.


As razões para um suicídio

Certa vez ao receber a notícia que uma conhecida cometeu suicídio, questionei o motivo e a resposta que obtive foi ríspida: _e precisa de motivo? Hoje tenho certeza que sim, uma pessoa deprimida é uma bomba relógio e alguns gatilhos como falta de diálogo, acolhimento e julgamentos podem contribuir e muito para a tomada de decisão, na verdade, um motivo qualquer, visto por muitos como banal pode ser a gota d’água no copo prestes a transbordar que é a vida de quem convive com a doença. Então tenho que ter cuidado ao falar com quem tem depressão? Óbvio, se não tiver nada que possa melhorar seu estado, simplesmente não fale nada, fique ao seu lado, ouça quando ela estiver disposta a falar, e principalmente não julgue ou tente dar conselhos que não irão beneficiar em absolutamente nada o estado daquela pessoa.

Eu falo isso com conhecimento de causa. Perdi as contas de quantas vezes atentei contra a minha própria vida, fui internada e ouvi de profissionais da saúde que era uma pena eu não ter conseguido, estar ocupando um leito. Triste né? Mas é a realidade, se até quem deveria estar preparado consegue pisar na bola, imagina quem desconhece completamente os sintomas da doença.

A essa altura você deve estar se perguntando o porquê de eu não ter logrado êxito em nenhuma destas tentativas e a resposta é simples, porque no fundo eu estava lutando para sobreviver, mas tenho certeza que se não fosse uma EQM durante uma overdose, uma hora teria dado “certo”. Acredite, a maior parte da sociedade pensa como Michelle Carter, você com certeza já ouviu a máxima de quem quer se matar vai lá e faz, não fica de gracinha…

Conrad Roy era um rapaz doente, solitário, vivendo sem atenção, num lar despedaçado pelo divórcio, tratado com agressividade pelo pai, que conheceu uma garota imatura e igualmente doente, sem amigos, que precisava desesperadamente de atenção. Michelle fora convencida que a morte seria a única forma de por fim ao sofrimento do namorado.
O mais difícil de admitir é que de certo modo ela não estava errada, só ele sabia o tamanho de sua dor.

Quer saber um pouco mais sobre a gente? 
Nos acompanhe nas redes sociais: @movie.places (Instagram)facebook/movieplacesoficial; youtube.com/movieplaces

You may also like

Leave a Comment