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A Fragilidade do Afeto em Tangerine

27 de fevereiro de 2021

Em tese, o êxito do aprofundamento das relações humanas, em qualquer nível de envolvimento, depende, inextricavelmente, do senso de responsabilidade emocional – uma espécie de cuidado afetivo – que deve ser compartilhado por todas as partes envolvidas, para, de alguma maneira, minimizar ou mesmo evitar as angústias provocadas pelas frustrações e desdobramentos infelizes, em geral, tornados possíveis por mentiras e traições. Entretanto, a fragilidade do afeto em Tangerine e este suposto senso de responsabilidade emocional – basilar à consolidação dessas relações – são, justamente, os aspectos corrosivos, em quase todos os personagens, que protagonizam esta narrativa de conciliação das diferenças, por meio de um violento, por vezes melodramático, confronto de realidades e pontos de vista.

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A Fragilidade do Afeto em Tangerine

Tangerine é uma obra fílmica provocativa – tanto no que concerne ao modelo estético adotado pelo diretor quanto no que tange a seu conteúdo. Ela se desenvolve em movimento, no trânsito entre a descoberta e o acerto de contas. Além de sustentar, de maneira inteligente e sensível, grande parte de seu teor melodramático em arquétipos de indivíduos socialmente indesejáveis, negligenciados, vivendo à margem da sociedade, o filme potencializa sua narrativa, ao tipificar as várias fissuras, em diferentes modelos de relacionamentos afetivos, que parecem escapar, por assim dizer, em sua estrutura fundadora, ao que seria aceitável pelo senso comum, em uma sociedade regida por normas patriarcais judaico-cristãs heteronormativas.

Um Drama Atual para Além do óbvio

Ambientado em uma Los Angeles das minorias, periférica e para além do glamour cinematográfico, a obra encena apenas um dia do drama pessoal de Sin-Dee Rella (Kitana Kiki Rodriguez), uma prostituta transexual negra, que é solta da prisão – após um período de 28 dias de internação por porte de drogas – na véspera de Natal, e descobre, acidentalmente, em conversa com sua melhor amiga, também prostituta transexual negra, Alexandra (Mya Taylor), que seu namorado e cafetão, Chester (James Ransone), homem cisgênero branco, está saindo, desde a sua prisão, com uma mulher cisgênero branca, Dinah (Mickey O’Hagan). Esta descoberta devastadora dá origem a uma jornada catártica, na qual Sin-Dee, para os íntimos, não somente confrontará sua rival e seu namorado; mas também descobrirá que pode ter sido traída por quem menos esperava.

Os Eixos Narrativos: um mérito incontestável

Organizada em três eixos narrativos – e aqui está um dos grandes méritos do filme – o drama amoroso de Sin-Dee é contado e adensado por eventos secundários que permitem ao espectador tomar posse de uma visão panorâmica de todos os acontecimentos que entrecortam a sua história e evidenciam suas implicações diretas na organização familiar do taxista armênio Razmik (Karren Karagulian) e na economia psíquica de Alexandra e Dinah. Em clara oposição às representações socioculturais de união, fraternidade, amor, família e perdão que a véspera de Natal consolida, as vicissitudes protagonizadas por Sin-Dee, Alexandra e Razmik aniquilam o caráter religioso desta data comemorativa cristã e centralizam as reflexões propostas pela narrativa no que há de mais humano: as paixões e suas consequências desagregadoras.

Conclusão

Tangerine é uma obra necessária, pois sua estrutura narrativa dá voz a diferentes personagens, que, em geral, são emudecidos em nossa sociedade. Mulheres transexuais, que ganham a vida prostituindo seus corpos, porque a nossa sociedade é regida por padrões que não as incluem; homens cisgênero brancos, negros, árabes que, não só lucram com a prostituição, mas são também fiéis consumidores dos corpos e do “amor” dessas mulheres – são os personagens que emergem desse drama urbano – com uma estética decadente, que se institui na intenção e no desejo real de dar a esses personagens invisíveis, ao menos, na tela, o protagonismo social a que têm direito. E nós, enquanto espectadores em desconstrução, devemos contemplar a obra e entender que as Sin-Dees, Alexandras e Dinahs são pessoas reais, que merecem, acima de tudo, o nosso respeito e o nosso reconhecimento.

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