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A codependência de Malcolm & Marie

12 de fevereiro de 2021
Crítica de Malcom & Marie

Em 2001, após receber o Oscar de melhor atriz, por Erin Brockovich, Julia Roberts cometeu uma enorme gafe ao exceder seu tempo de discurso agradecendo meio mundo, exceto, a verdadeira Erin Brockovich, em quem seu papel havia sido baseado. Vinte anos após este embaraçoso momento, chega a Netflix Malcolm & Marie, um drama conjugal, com direito a troca de acusações como ingratidão e falta de reconhecimento, adivinhem o motivo? Malcolm, personagem de John David Washington, se esquece de agradecer sua bela namorada, Marie, (Zendaya) durante a cerimônia de estreia de seu filme, supostamente inspirado na vida da moça. Esse é o gatilho para sequencia de discussões que acompanhamos através da movimentação destes dois no interior de uma casa de vidro. A codependência de Malcolm & Marie é o traço marcante desta história. Entenda.

Malcolm & Marie

Escrito (em seis dias!), dirigido e produzido por Sam Levinson, consagrado pela série Euphoria, Malcolm & Marie foi o primeiro filme a completar sua produção durante a pandemia, o que lhe garantiu uma acirrada disputa entre a Netflix, outras plataformas e até estúdios de cinema, pelos direitos mundiais da obra. Todos estavam interessados no filme de baixíssimo orçamento (U$ 2,5 milhões) com duas estrelas de Hollywood em plena ascensão. Por fim, a gigante do streaming o arrematou por U$ 30 milhões, Malcolm & Marie estreou na Netflix na última sexta-feira (5), provando que é é possível produzir com pouco e ter um resultado incrível.

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A codependência de Malcolm & Marie

Malcolm é um cineasta ambicioso que finalmente parece estar colhendo os frutos de seus esforços. Após a cerimônia de estreia do seu último filme, ele e sua namorada, Marie, chegam em casa, e o que era para ser um momento de celebração, transforma-se numa batalha, onde cada um tenta provar, através de falas eloquentes, que o seu ponto de vista é o correto. Após Marie revelar sua decepção por não ter sido citada no discurso de agradecimento, Malcolm ataca, acusando-a de instável. A primeira vista parece tratar-se de uma relação tóxica, com Marie sendo humilhada e diminuída por seu namorado narcisista. No entanto, com o avançar da trama passamos a conhecer ambos os lados, o espectador assume um papel de terapeuta conjugal, ouvindo uma alternância quase infinita de queixas.

Ao final fica claro que o que estamos testemunhando é uma relação de codependência. Malcolm precisa de Marie, mas tem uma enorme dificuldade em admitir. Já Marie é um enigma. Ela se sabota? Certamente. Vive a sombra de Malcolm? Sim. Mas é consciente e esperta o suficiente para mudar a dinâmica do jogo. A questão é: por ela não o faz? Aqui entra alguns palpites para justificar sua permanência nessa relação. Amor seria o mais óbvio, mas há algo além. Marie tem o corpo e a alma combalidos, ela ainda não superou tudo o que passou, talvez jamais supere. Malcolm é a força vital, a chama que a incomoda, que a tira de sua zona de conforto. Juntos eles se equilibram, se completam, são seres melhores na presença um do outro. Marie já sabe disso e tenta desesperadamente fazer com que Malcolm também compreenda.

Crítica: A codependência de Malcolm & Marie
NETFLIX © 2021

O filme tem uma parte técnica sólida, muito bem construída com belos enquadramentos. O diretor de fotografia, Marcell Rév, que já trabalhou com Sam e Zendaya em Euphoria, optou pelo preto e branco, filmado em 35mm, conferindo um ar elegante ao filme.

O roteiro tem diálogos longos e bem elaborados, alternando reflexões maduras com surtos infantis, um verdadeiro jogo de cena que remete ao teatro. Destaque para o cenário externo, árvores com folhagens estáticas, semelhante a uma floresta cenográfica, de onde Marie surge majestosamente. No interior da casa, o destaque fica para o uso emblemático dos espelhos.
A trilha sonora é de extremo com gosto e não está ali apenas para animar as cenas ou preencher momentos de silêncio. Ela faz parte da relação dos dois, nos dizendo muito sobre eles.

As atuações são o ponto alto. Zendaya e John David Washington seguram todo o filme sem nenhuma interferência externa, são só eles em seus personagens carregados de emoções. Ambos se afirmam como excelentes atores em dramas densos. Zendaya já tinha provado em Euphoria seu talento neste gênero, mas em Malcolm & Marie fica claro que ela deu um passo além.

O enquadramento do casal ao final confirma a fala de Marie, Malcolm faz desta relação um filme.

Cena final de Malcolm & Marie
Tríptico remete a um negativo de filme
NETFLIX © 2021

Esse é o melhor filme lançado pela Netflix desde História de um casamento.

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